Blog

Ele olhou para mim.

Minha casa não tinha nada de luxo. Era na verdade bem simples, com poucos móveis de segunda mão e alguns brinquedos de madeira e pano que eu e meus irmãos fazíamos. Por mim, eu preferia ficar com eles do que acompanhar minha mãe nessa longa viagem. Mas, ela insistiu que eu precisava ver um tipo de curandeiro ou algo parecido.

 

Antes de partirmos, ela fez questão de deixar comida preparada para meus irmãos e de separar alguns pães, mel e figos para levarmos em nossa viagem. Desde o falecimento do meu pai, eu não me animava mais com nada e não seria uma viagem que mudaria essa situação. Eu não conseguia entender isso que estava acontecendo com a gente.

 

Durante o caminho, minha mãe me explicou que esse tal homem ia me ajudar a tirar essa tristeza do meu coração. Perguntei se ele também conseguiria trazer meu pai de volta, mas ela não soube responder, só disse que o curandeiro ia me curar. Pra mim não fazia sentido me curar sem trazer meu pai de volta.

A jornada foi longa, andamos muito, mas muito mesmo. Talvez outra criança teria gostado de conhecer tanta coisa nova e ver tantos lugares diferentes, mas eu só ficava pensando na minha cama, que dividia com meus irmãos.

 

Quando finalmente minha mãe disse que havíamos chegado, eu já nem queria saber de homem nenhum, só queria deitar e descansar em qualquer canto. No entanto, a cidade que estávamos era tão conturbada, com gente correndo e gritando para todo lado, que até me despertei.

 

O que será que estava acontecendo ali? Será que era uma cidade de loucos? Será que todos estavam fugindo de algum monstro? Pra que lado a gente deveria correr?

 

Minha mãe sem saber o que fazer, apressou o passo na mesma direção que a multidão corria. Todos falavam ao mesmo tempo, se mexiam de um lado para o outro, eu não conseguia ver nada. Era tanta gente na minha frente que eu não consegui entender o que se passava.

 

No meio daquela barulhada toda, comecei a perceber o que alguns diziam: “É ele”; “Pegaram ele”; “Tão machucando ele”; “Ele foi condenado”; “Ele é um bandido”; “Ele não merece isso”; e coisas do tipo. Fiquei querendo saber quem era aquele homem, mas nada, ninguém dava espaço pra mim.

 

Até que minha mãe assustada me disse:

–É ele, vão matar ele.
–Quem, mãe? Não estou vendo nada.
–É o homem que ia te ajudar (com voz desolada ela respondeu).
–Então não adiantou nada a gente ter vindo até aqui? Eu sabia, eu disse pra gente ficar em casa. Puxa, e agora? Vamos ter que voltar todo aquele caminho do mesmo jeito?

 

Nada mudou pra gente e pra ele ficou bem pior. Ninguém pode me ajudar mesmo. Eu nasci pra sofrer, pelo jeito. E mesmo que ele quisesse me ajudar, não conseguiria, ele mesmo não consegue se ajudar.

 

Justo quando eu pensava isso, vi um homem andando e segurando nas costas um pedaço bem grande de madeira. Ele estava todo machucado, andava com uma certa dificuldade e vinha na minha direção. Chegando um pouco mais perto, ele virou o rosto e seus olhos me viram. Ele olhou pra mim.

 

Naquele instante senti um aperto na minha barriga. Vi que tinha sangue escorrendo dos seus ombros e provavelmente estava sentindo muita dor, acho que tinham batido muito nele, mas ele não estava chorando nem nada.

 

Eu não conseguia entender porque ele olhou pra mim, logo pra mim, tão pequeno, tão sem importância, mas por uma fresta entre aquelas pernas grandes das pessoas, ali ele me encontrou.

 

Se ele era tão importante e tinha tanto poder pra curar, como minha mãe falou, porque me encontrou ali? Era como se ele nem se importasse com o peso que carregava e sabia que eu estava ali. Eu parecia mais importante do que tudo que acontecia por lá.

 

Foi tão rápido, tão de repente, mas foi como se ele tivesse olhado dentro de mim. Senti como se seus olhos fossem mágicos. Acho que ele viu que eu sofria lá dentro, que eu não conseguia sorrir. Até me deu vontade de sorrir pra ele, no entanto, não podia numa hora daquela, onde os soldados estavam levando-o pra morte. Ele sabia na pele o que era sofrer, por isso ele me entendia. Não sei se ele tinha perdido o pai também, mas com certeza ele sabia o que eu sentia.

 

Minha mãe puxou minha mão pra sairmos dali. Eu queria ver mais, eu tinha que chegar mais perto dele. Na minha imaginação, o curandeiro seria um homem sentado numa cadeira grandona, vestido com roupa brilhante e uma vara mágica na mão para curar todo mundo, mas agora tinha conhecido um homem que sofre até mais do que eu.

 

Alguém que carrega um peso enorme e ainda consegue dar atenção pra alguém como eu, pequeno, eu precisava ver mais. Insisti tanto com minha mãe que ela aceitou que a gente fosse pra uma pousada descansar antes de fazer o caminho de volta.

 

Depois de dormirmos muitas horas, era minha mãe agora quem não queria levantar da cama. Preocupada, ficava pensando em como resolver meu problema já que o homem tinha morrido. Eu, por outro lado, estava curioso e cheio de animação querendo saber o que tinha acontecido com ele.

 

Decidi então, ir lá fora e começar a perguntar para as pessoas que estavam sentadas, paradas, como num funeral mesmo, igual ao do meu pai. Cada um ia contando um pouco sobre esse homem. O nome dele era Jesus. Uns disseram que ele era maluco, outros que era um professor; alguns estavam tristes, outros falavam dele dizendo que teve o que merecia.

 

Eu estava ficando muito confuso com as informações, mas tinha certeza de que ele era um homem bom. Eu vi quando me olhou. Sabia que gostava de pessoas como eu e se preocupava mais com elas do que consigo mesmo. Foi então que eu ouvi uma voz firme dizendo que era só esperar mais uns dias que a verdade seria revelada. Fiquei curioso e cheguei perto dessa mulher que falava com outras enquanto limpavam tâmaras. Ela continuou dizendo que ele tinha dito que morreria e que viveria de novo. Fiquei sem reação, ele era mesmo um mágico. Ele podia fazer as coisas desaparecerem, assim como fez a minha tristeza sumir. Eu ia poder vê-lo de novo. Tinha sido tão rápido. Eu queria ficar mais tempo com ele. Até pensei em perguntar se ele teria visto meu pai na morte.

 

Corri pra minha mãe e contei tudo o que a mulher tinha dito. Implorei pra gente ficar mais dois dias pra eu ver o Jesus de novo. Disse pra ela que quando ele olhou pra mim, alguma coisa aconteceu. Eu não sabia explicar direito, mas foi como se ele tivesse mergulhado, melhor, saltado para dentro de mim. Eu estava sentindo muita alegria e queria agradecer a ele, queria saber mais sobre sua mágica.

 

Minha mãe então, com um sorriso imenso no rosto que eu nem lembrava mais que ela tinha, explicou que levaríamos alguns dias pra voltar pra casa, que meus irmãos estavam esperando e que não tínhamos dinheiro pra ficar mais dois dias. Ela disse ainda que já tinha recebido o que foi procurar lá.

 

Eu estava curado e ela voltaria muito feliz. Então, entendi e prometi à minha mãe e a mim mesmo: “Mãe, eu vou então buscar toda notícia que sair sobre Jesus; não preciso ver ele pessoalmente agora, porque já o vi; sei que ele vai ficar vivo de novo. Quando eu crescer, vou fazer de tudo para me encontrar com ele e vou abraçá-lo; vou agradecer o que ele fez por mim e dizer que o amo. Isso mesmo, mãe, não preciso ver ele agora, mas eu sei que ele nunca vai sair do meu pensamento. Afinal, ele olhou pra mim primeiro!”

 

Autora: Clenir dos Santos – Diretora Internacional do Projeto Calçada